Como transformar a relação de uma comunidade com o seu patrimônio natural mais valioso, mas que muitas vezes é tratado apenas como recurso funcional ou ameaça nas enchentes? No Noroeste Fluminense, a resposta vem sendo desenhada de dentro d’água. Neste sábado, dia 20 de junho de 2026, Itaocara sedia o 2º Passeio Ecológico do Rio Paraíba do Sul, evento organizado pela Associação de Canoagem de Itaocara (ACAI) que une canoagem, rafting, pesca esportiva e preservação ambiental para propor uma reflexão urgente sobre governança e sobrevivência do território.
Muito além de uma agenda de esporte e lazer, a iniciativa celebra mais de duas décadas de resistência comunitária da associação fundada em 2005. O projeto atua de forma independente para suprir lacunas históricas do poder público, redefinindo a governança local através do sentimento de pertencimento.
A atuação da ACAI dialoga diretamente com o conceito de saúde defendido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que define o bem-estar como um estado completo de equilíbrio físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças.
A inclusão dessa diretriz nos pilares da associação nasceu da provocação de um membro da própria comunidade.
“Nós passamos a incluir essa questão da OMS nos nossos pilares por orientação do Dr. André, que é um cardiologista, grande canoeiro e defensor do esporte. Ele nos orientou a chamar atenção para isso nos eventos”, explica Jefferson Veiga, presidente da ACAI.
Para ele, a canoagem atua como um forte aliado contra o estresse urbano e transtornos psíquicos. “A canoagem é praticada ao ar livre e essas atividades são complementares e muito úteis ao tratamento de doenças psíquicas. É uma limpeza mental. A própria adrenalina nos faz descarregar muita coisa. O esporte me ajuda demais a manter o equilíbrio, a tirar o estresse”, completou Jefferson.

No entanto, para que a saúde única, humana, animal e ambiental, se consolide, o principal gargalo enfrentado pelo Rio Paraíba do Sul precisa ser debatido de forma transparente. Embora o trecho de Itaocara seja largo, extenso e beneficie-se da oxigenação natural provocada por suas corredeiras e cachoeiras, o despejo de esgoto doméstico sem tratamento continua sendo a grande ameaça invisível.
“O grande problema hoje dos rios, com relação à saúde pública das cidades, é a questão do esgoto”, adverte Jefferson. “É o que falta ser resolvido pelo poder público e pela sociedade. Essa conta vai ter que ser rachada, não vai ter jeito. Essa prática de jogar o esgoto in natura na água gera uma problemática imensa de doenças”, lembrou, Jefferson.
Do legado de “Pedrinho” à economia real do turismo
A força que mantém a ACAI ativa por mais de 20 anos, enfrentando burocracias e a escassez de recursos estruturais, tem raízes profundas na história familiar e afetiva de Jefferson. Ele é filho do saudoso Idemar de Souza Figueiredo, o querido “Idemar da Farmácia”. Boticário que marcou a história de Itaocara, Idemar foi uma liderança pública incansável, tendo atuado como Secretário de Saúde e idealizado a Reserva Florestal Regina Casé, no Sítio Bom Sossego (na localidade de Duas Porteiras), onde plantava árvores nativas e ensinava, pelo exemplo prático, a importância de conservar a Mata Atlântica.
Mas o esporte também deu a Jefferson outro “pai” de coração: ele é um dos orgulhosos “filhos” de Pedrinho Cidade, o lendário professor de futebol que formou o caráter e a disciplina de uma geração inteira de jovens na cidade.

“O que o Pedrinho fez durante toda a minha juventude, com aquela entrega desinteressada pelo esporte, carregando aquele monte de crianças com tanto carinho, é o que alimenta a minha vontade de seguir”, desabafa Jefferson. “Às vezes as pessoas acham que a gente é meio babaca por deixar de fazer coisas para nós mesmos em nome do bem comum. Mas o exemplo do meu pai e do Pedrinho reverbera na minha vida. Faço por amor e para devolver o tanto que o esporte e o rio já me deram”, contou Jefferson.
Essa conexão afetiva com o Paraíba do Sul fundamenta a visão da associação de que o ecossistema é o maior ativo econômico da região, muito mais viável e sustentável para o interior do que a dependência de indústrias metropolitanas que raramente se instalam na região rústica.
“Não adianta a gente continuar sonhando achando que vai vir indústria ou grandes serviços para o interior. Ninguém vai sair das capitais para instalar nada aqui. Temos que explorar o que temos de melhor: nossa agricultura e o nosso rio, agregando valor e explorando turisticamente de forma sustentável”, defende Jefferson, apontando que o turismo distribui renda de forma imediata na ponta.
No passeio deste sábado, inclusive, a associação prestará uma homenagem histórica aos pescadores artesanais locais, integrando-os como agentes da cadeia turística.
Da Eco-92 às novas gerações
Um dos desafios assumidos pela ACAI é reverter o distanciamento da juventude em relação às causas ecológicas. Para o presidente da associação, que se define como um “filho da Eco-92”, o contato físico com a correnteza é o melhor instrumento pedagógico para formar cidadãos conscientes.
“O esporte de aventura contagia o praticante a fiscalizar e a cuidar do rio. Isso é inerente à prática”, afirma Jefferson. Contudo, ele pondera que a renovação de atletas esbarra na falta de incentivo estrutural no país.
“O jovem precisa de espaço, de escolinhas de canoagem, algo que ainda não tem grande expansão no Brasil devido aos custos iniciais de equipamentos. A Confederação Brasileira de Canoagem (CBCa) tem feito projetos em cidades como Pádua, Macaé e Governador Valadares, e nossa meta é conseguir viabilizar um núcleo também em Itaocara”, contou Jefferson.

Foto: Divulgação ACAI – Elisabete Carvalho
Enquanto o projeto da escolinha amadurece, a associação soma forças com outras iniciativas consagradas de educação ambiental prática no território fluminense, como a ONG Noroeste Fluminense, o Projeto Piabanha e parcerias com o Instituto Federal Fluminense (IFF).
Diferente de organizações que operam em isolamento ou em oposição sistemática, a ACAI consolidou um histórico maduro de diálogo com as diferentes gestões municipais que passaram por Itaocara nas últimas duas décadas.
“Ao longo de 20 anos, sempre tivemos algum tipo de apoio do governo. Fomos ouvidos, mas em algumas gestões conseguimos avançar muito pouco. Hoje, a realidade mudou porque entregamos resultados de longo prazo. O apoio tanto das empresas privadas quanto do atual prefeito, Heriberto, tem sido esplendoroso. Ele se sensibilizou e abraçou a causa do turismo e do esporte. O fato de eu ter hoje um grande amigo como vereador, o Deyvinho, ajuda imensamente. A política também gira em torno desses contatos de confiança”, finalizou Jefferson.

Essa maturidade administrativa reflete-se na logística inclusiva montada para o passeio deste sábado. Com um trajeto de 7 quilômetros de extensão partindo às 9h dos Quiosques de Itaocara, o evento foi planejado para receber iniciantes, crianças e idosos através de estruturas acessíveis:
- Rafting Coletivo: Botes infláveis de alta segurança com guias para quem não tem embarcação.
- Aluguel de Caiaques: Atendimento individualizado com acompanhamento técnico.
- Passeio de Barco a Motor e Pesca Esportiva: Focado na busca e soltura de espécies nativas, como robalo e dourado.
A chegada ocorrerá a partir das 13h na Rampa da Ilha do Capixete (Nino), um verdadeiro “paraíso” local escolhido estrategicamente para aproximar a comunidade do espaço natural.
A organização disponibilizará um piloteiro de forma gratuita para fazer a travessia das famílias que quiserem acompanhar as ações de terra, que incluem um mutirão de plantio de mudas nativas da ONG Noroeste Mais Verde para recuperação da mata ciliar. Às 16h, a @Banda_rocktrip sobe ao palco para o encerramento cultural do encontro.
Informações e Inscrições
A participação no passeio ecológico e nas ações ambientais na Ilha do Capixete é gratuita e aberta ao público. Para os interessados em adquirir o kit oficial (camisa e churrasco de confraternização), as inscrições podem ser feitas diretamente com a organização:
Contato: (21) 99816-5664 – Jefferson Veiga









