Empreendimento permitirá armazenar energias renováveis, reduzindo desperdícios e reforçando a estabilidade da rede elétrica belga
A Bélgica deu mais um passo importante em sua estratégia de descarbonização ao inaugurar, na cidade de Vilvoorde, na região de Flandres, o maior parque de baterias em operação do país e um dos maiores da Europa. O projeto representa uma mudança significativa na forma como a eletricidade proveniente de fontes renováveis será utilizada, permitindo armazenar energia produzida em momentos de baixa demanda para reutilizá-la quando o consumo aumentar.
Composto por 320 contêineres de baterias de íons de lítio e com capacidade de 200 MW de potência e 800 MWh de armazenamento, o parque é capaz de fornecer, em uma descarga completa, eletricidade suficiente para atender ao consumo diário médio de aproximadamente 96 mil residências belgas. O parque entrou em operação em duas fases ao longo de 2025 e foi oficialmente inaugurado em janeiro de 2026 pelas autoridades flamengas.
Por que um parque de baterias é tão importante?
Ao contrário das usinas convencionais, a geração de energia por meio do vento e do sol depende das condições climáticas. Muitas vezes, a produção é elevada justamente quando o consumo é baixo, obrigando o operador da rede elétrica a desperdiçar parte dessa eletricidade ou limitar a geração. É justamente esse problema que os parques de baterias procuram resolver.
O sistema funciona como uma enorme “caixa de armazenamento”: quando há excesso de energia renovável disponível, as baterias são carregadas. Horas depois, quando a demanda aumenta, essa energia é devolvida à rede elétrica. Na prática, isso reduz desperdícios, melhora o aproveitamento da energia limpa e diminui a necessidade de acionar usinas movidas a gás natural para atender aos picos de consumo.
Segurança para uma rede elétrica cada vez mais renovável
Do ponto de vista técnico, a importância do projeto vai além da simples capacidade de armazenamento.
As baterias respondem em questão de segundos às oscilações da rede elétrica, ajudando a manter a frequência do sistema em torno de 50 Hz, requisito indispensável para o funcionamento seguro de equipamentos industriais, hospitais, transportes e residências.
Esse tipo de flexibilidade tornou-se essencial à medida que fontes renováveis intermitentes passaram a ocupar uma parcela crescente da matriz elétrica europeia.
A título de exemplo, o parque de Vilvoorde já contribuiu, durante os meses de inverno de 2025, para armazenar aproximadamente 40 GWh de eletricidade, posteriormente reinjetados na rede.

De usina a carvão a símbolo da transição energética
O aspecto simbólico do empreendimento também chama atenção. O parque foi instalado exatamente na área onde, durante décadas, funcionou uma usina termelétrica alimentada primeiro por carvão e, posteriormente, por gás natural. O antigo complexo industrial passa agora a exercer uma função completamente diferente: em vez de produzir energia a partir de combustíveis fósseis, passa a armazenar eletricidade gerada principalmente por parques eólicos e solares.
Tal transformação ilustra a estratégia adotada pela Bélgica e por diversos países europeus de reutilizar áreas industriais existentes para acelerar a transição energética, aproveitando a infraestrutura já conectada à rede de alta tensão.
Um movimento que vai além de Vilvoorde
A inauguração não representa um caso isolado. A Bélgica vive atualmente uma verdadeira corrida pelos sistemas de armazenamento de energia. Novos parques de baterias já estão em construção em localidades como Drogenbos, Kallo, Ruien, Langerlo e Zeebrugge. Esses projetos entrarão em operação até 2027.
O objetivo é preparar o sistema elétrico para uma participação cada vez maior das energias renováveis, reduzindo gradualmente a dependência de combustíveis fósseis, aumentando a segurança do abastecimento e contribuindo para uma maior autonomia energética do bloco europeu.
Reflexos para o Brasil
Embora o Brasil possua uma matriz elétrica muito mais limpa que a europeia — fortemente baseada na geração hidrelétrica —, a expansão acelerada das energias solar e eólica começa a trazer desafios semelhantes aos enfrentados pela Bélgica.
Nos últimos anos, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) precisou, em diversas ocasiões, limitar a geração de parques solares e eólicos devido ao excesso de oferta em determinados horários.
Nesse contexto, parques de baterias também podem ser vistos como uma solução estratégica para o setor elétrico brasileiro, permitindo aproveitar melhor a energia renovável já produzida, aumentar a estabilidade da rede e reduzir desperdícios.
A experiência europeia demonstra que a transição energética não depende apenas da expansão das fontes renováveis, mas também da criação de uma infraestrutura capaz de armazenar eletricidade de forma eficiente. Em outras palavras, produzir energia limpa é apenas parte da equação; garantir que ela esteja disponível exatamente quando consumidores e indústrias precisarem dela tornou-se um dos principais desafios da nova economia de baixo carbono.
Fontes
https://corporate.engie.be/fr/energy/batteries/le-parc-de-batteries-de-vilvorde











