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Brasil bate recorde com 1,1 milhão de deslocados pelo clima

O avanço das mudanças climáticas globais já não é uma projeção para o fim do século; é um dado consolidado de deslocamento humano no chão de fábrica do território brasileiro. Em um levantamento inédito elaborado pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) em apoio técnico ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), o Brasil acendeu o sinal de alerta máximo: apenas em 2024, o país registrou o recorde histórico de 1,1 milhão de novos deslocados internos por desastres ambientais.

Os números, baseados no relatório do Internal Displacement Monitoring Centre (IDMC), revelam que a crise climática redesenhou a demografia da vulnerabilidade no país. Desse total, cerca de 775 mil deslocamentos estiveram diretamente associados às trágicas enchentes e deslizamentos de terra que assolaram o Rio Grande do Sul. Na outra ponta do extremo climático, a seca severa na região Norte desencadeou 35 mil deslocamentos forçados no Amazonas e impulsionou incêndios florestais que forçaram a fuga de mais de 9 mil pessoas no Pará.

O apagão normativo na governança local

Embora o volume de pessoas forçadas a abandonar suas casas, seus meios de subsistência e suas referências culturais seja monumental, o relatório técnico traz um diagnóstico preocupante sobre a governança pública: o Brasil ainda carece de uma legislação nacional específica para proteger e assistir os chamados deslocados internos.

Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

De acordo com o documento do ACNUR e do MMA, essa lacuna na lei gera um cenário de responsabilidades fragmentadas e respostas desiguais entre os entes federativos. Sem um sistema unificado de identificação, acolhimento e monitoramento de longo prazo, estados e prefeituras operam no escuro, tratando o deslocamento forçado como um evento temporário de defesa civil, e não como uma perda não econômica profunda e duradoura.

Na prática, pessoas deslocadas à força permanecem invisíveis no planejamento municipal de adaptação, mitigação e reconstrução. O fluxo burocrático e a descoordenação política fazem com que apenas os municípios com maior aporte financeiro consigam estruturar respostas humanitárias mínimas, perpetuando ciclos de exclusão e vulnerabilidade contínua.

Mais de 30 milhões de brasileiros na linha de frente

O relatório cruza os dados populacionais do IBGE com os registros do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD) e aponta que mais de mil municípios brasileiros possuem reconhecimento federal vigente de situação de emergência. A estimativa é alarmante: mais de 30 milhões de pessoas residem atualmente em áreas diretamente submetidas a condições extremas de estiagem, seca ou chuvas intensas.

Essa imensa parcela da população convive diariamente com o risco iminente de perder o teto e o chão. E o perfil mais afetado não é homogêneo: a injustiça socioambiental e o racismo ambiental determinam que comunidades tradicionais, pequenos produtores rurais, populações ribeirinhas e moradores de periferias urbanas precárias sofram os impactos mais severos da crise, mesmo sendo os que historicamente menos contribuíram para a emissão de gases de efeito estufa.

O reflexo do risco no interior fluminense

Ainda que as lentes da mídia nacional tenham se voltado majoritariamente para as catástrofes de proporções metropolitanas, o estudo faz um alerta contundente para a urgência de fortalecer a resiliência local em municípios de pequeno porte. É exatamente nessa estatística de alta exposição que se inserem as cidades e distritos rurais do interior do Estado do Rio de Janeiro.

Regiões marcadas por enchentes severas e estiagens cíclicas enfrentam o mesmo chão de fábrica da vulnerabilidade mapeado pela ONU. O pequeno produtor familiar que perde a safra pela seca prolongada ou o morador de distritos vulneráveis que vê sua casa ser invadida pela cheia dos rios sofrem do mesmo esvaziamento de perspectivas.

Quando o nexo climático força essas famílias a abandonarem suas terras em direção às franjas das cidades vizinhas, o deslocamento invisível se consolida no interior fluminense, sem que haja qualquer meta, indicador ou dotação orçamentária municipal para gerenciar essa migração forçada.

Integrar o deslocamento pelo clima na governança das políticas públicas locais deixou de ser um debate acadêmico e passou a ser uma necessidade operacional e humanitária urgente para a sobrevivência dos territórios.

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