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Créditos de carbono: como o mercado financia a restauração

Especialista aponta caminhos e desafios para o mercado de carbono financiar o reflorestamento

Imagine que uma empresa em São Paulo emite toneladas de CO₂ na atmosfera e que, para compensar esse dano, ela paga para que uma floresta na Amazônia ou na Mata Atlântica seja plantada ou preservada. Esse é, em linhas muito gerais, o princípio dos créditos de carbono: um mecanismo financeiro que transforma a capacidade das árvores de absorver gás carbônico em um ativo negociável. Simples de entender, complexo de executar e cada vez mais central nas discussões sobre como financiar a recuperação ambiental no Brasil e no mundo.

O tema foi apresentado em uma palestra realizada em maio de 2026 por Marisa Raphaela Kunze Locke, gestora alemã com mestrado em Gestão de Recursos Naturais pela Universidade de Ciências Aplicadas de Colônia e especialista em projetos de carbono baseados em soluções naturais. Com passagem pela empresa Forliance e hoje na First Climate, onde atua como gerente de desenvolvimento de projetos de carbono, ela explicou a lógica do mercado, seus desafios e seu potencial para quem pensa em projetos de restauração ecológica.

Tudo começa com um gás que a gente não vê

Para entender os créditos de carbono, é preciso dar um passo atrás e entender o problema que eles tentam resolver.

Desde a Revolução Industrial, as emissões de gases de efeito estufa cresceram mais de 180 vezes, um número que, por maior que pareça, tem consequências muito concretas: aumento da temperatura média do planeta, eventos climáticos extremos mais frequentes, derretimento de geleiras e elevação do nível dos mares.

Os gases de efeito estufa mais conhecidos são o dióxido de carbono (CO₂), o metano (CH4) e o óxido nitroso (N₂O). O nome não é à toa: eles funcionam como o vidro de uma estufa, deixando o calor do sol entrar mas dificultando sua saída. Quanto mais esses gases se acumulam na atmosfera, mais quente o planeta fica.

A lógica dos créditos de carbono parte de uma constatação básica: plantar árvores absorve CO₂. Se uma floresta captura o que uma fábrica emite, o balanço pode, ao menos em teoria, se equilibrar.

O conceito não é novo. A primeira grande tentativa de organizar isso em escala global veio em 1997, com o Protocolo de Kyoto. O acordo obrigou países industrializados a cumprir metas de redução de emissões e criou o chamado Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (em inglês, Clean Development Mechanism, o CDM) que permitia que países ricos financiassem projetos de redução de emissões em países em desenvolvimento e contabilizassem esses resultados em suas metas.

O protocolo entrou em vigor em 2005. Em 2015, o Acordo de Paris ampliou o modelo: desta vez, todos os países, e não apenas os industrializados, assumiram metas voluntárias e passaram a poder cumpri-las por meio do chamado Mecanismo de Créditos do Acordo de Paris (PACM, na sigla em inglês).

Hoje, o mercado de carbono funciona em duas frentes paralelas. O mercado regulado, supervisionado pela ONU, opera com regras rígidas e inclui o CDM e o PACM. Já o mercado voluntário funciona fora dessa estrutura governamental: empresas que querem ir além das obrigações legais compram créditos certificados por padrões privados reconhecidos internacionalmente, como o Gold Standard, o Verified Carbon Standard (VCS) e o Net Zero Standard.

Por que o mercado enfrenta uma crise de confiança

Apesar do potencial, o setor atravessa um momento delicado. Locke foi direta ao apresentar os três desafios principais.

O primeiro é de reputação. Nos últimos anos, investigações jornalísticas e relatórios independentes expuseram projetos de baixa qualidade, casos em que os créditos vendidos não correspondiam a nenhuma redução real de emissões. O resultado foi uma perda de confiança generalizada, que levou empresas a se tornarem muito mais cautelosas nas compras ou a evitá-las completamente por receio de dano à imagem.

O segundo desafio é econômico. A volatilidade dos preços dos créditos e a situação geopolítica global criaram um ambiente de incerteza. Em momentos de crise, explica Locke, os orçamentos de sustentabilidade costumam ser os primeiros a sofrer cortes, e o apetite por investimentos de longo prazo, como são os projetos de carbono, diminui consideravelmente.

O terceiro problema é a incerteza regulatória. Mudanças frequentes nas regras e a falta de clareza sobre como os créditos serão reconhecidos no futuro geram dúvidas em quem quer investir. Ninguém quer comprar um ativo cujo valor de amanhã é imprevisível.

A lacuna de financiamento que trava a restauração

Para projetos de restauração ecológica, como o reflorestamento de áreas degradadas, o cenário é ainda mais específico e, em alguns aspectos, mais difícil.

Diferente dos projetos chamados REDD+ (que protegem florestas que já existem e, portanto, já capturam carbono), projetos de restauração partem do zero. Uma área desmatada precisa ser replantada, as árvores precisam crescer e, só depois de anos, começam a capturar carbono em quantidade suficiente para gerar créditos certificáveis.

Esse intervalo entre o investimento inicial e a geração de receita é o que Locke chama de “lacuna de financiamento”. Quem financia o projeto nos primeiros anos, antes que qualquer crédito seja emitido? Essa é a pergunta que trava grande parte das iniciativas de restauração no Brasil, um país com enorme passivo ambiental e, ao mesmo tempo, imenso potencial para se tornar protagonista desse mercado.

A resposta, segundo a especialista, passa necessariamente por pré-financiamento, seja de investidores privados, de empresas compradoras dispostas a pagar adiantado por créditos futuros, ou de fundos específicos para projetos de impacto.

O que um projeto precisa para funcionar

Para quem pensa em desenvolver um projeto de carbono, Locke listou os critérios que qualquer iniciativa séria precisa cumprir:

Tamanho: projetos muito pequenos tendem a não ser economicamente viáveis, dado o custo do processo de certificação.

Adicionalidade: o projeto precisa provar que a redução de emissões ou a captura de carbono só aconteceria com aquele financiamento específico, ou seja, não pode ser algo que ocorreria de qualquer forma.

Espécies nativas ou não invasivas: o plantio precisa respeitar a biodiversidade local. Monoculturas de espécies exóticas não são aceitas pelos principais padrões de certificação.

Prevenção do “leakage”: em inglês, “vazamento”. Significa garantir que a proteção de uma área não apenas empurre o desmatamento para outro lugar. O projeto precisa demonstrar que está reduzindo emissões de forma sistêmica, não apenas deslocando o problema.

Permanência: a floresta precisa existir por tempo suficiente para que o carbono capturado não volte à atmosfera em poucos anos. Os padrões exigem compromissos de décadas.

Título de propriedade: parece óbvio, mas é um dos pontos que mais trava projetos no Brasil. Quem vai desenvolver o projeto precisa ter direito legal sobre a terra  ou um acordo formal com quem tem.

Da ideia à certificação: um processo que leva anos

O processo de certificação de um projeto de carbono não é rápido e quem entra nessa jornada precisa estar preparado para isso.

A primeira etapa é o estudo de viabilidade, que dura em média três meses e avalia se o projeto atende aos critérios básicos de elegibilidade. Se aprovado, vem a fase de validação e registro, que inclui uma visita ao local por uma entidade auditora independente (terceira parte) e pode levar de 12 a 24 meses.

Depois de registrado, o projeto começa a ser monitorado. A cada ciclo, que pode variar de três a cinco anos, uma nova verificação é realizada, com medições de biomassa para comprovar o quanto de carbono foi efetivamente capturado. Só então os créditos são emitidos e podem ser vendidos. Esse processo de verificação se repete por no mínimo 40 anos.

Um mercado difícil, mas com potencial real

A avaliação de Locke ao encerrar a palestra foi equilibrada: o mercado de carbono passa por um período desafiador, mas não está morto e seu potencial para projetos de reflorestamento é real, desde que as bases sejam sólidas.

“O mercado de carbono atravessa um período desafiador e os projetos de carbono enfrentam uma lacuna de financiamento. Ainda assim, ele oferece grande potencial para projetos de reflorestamento, desde que aspectos essenciais sejam considerados e o pré-financiamento e a sustentabilidade financeira de longo prazo sejam garantidos”, resumiu a especialista.

Para o Brasil, país que concentra parte significativa das florestas tropicais do planeta e que ainda enfrenta altos índices de desmatamento, esse mercado representa uma oportunidade concreta de atrair recursos internacionais para a restauração ambiental.

O caminho não é simples, mas existe. E começa, como quase tudo nessa área, por entender as regras do jogo.

Fonte: palestra “Créditos de Carbono e como podem ajudar a financiar a restauração ecológica”, apresentada por Marisa Raphaela Kunze Locke (First Climate) em maio de 2026 no curso Replântica na REGUA.

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