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Rio de Janeiro quer restaurar 440 mil hectares de Mata Atlântica.

O estado do Rio de Janeiro perdeu boa parte da sua cobertura florestal original ao longo de séculos de ocupação. Hoje, apenas 33% do território fluminense tem vegetação nativa, e desse total, um terço é cobertura florestal. Vinte e quatro municípios têm menos de 20% de remanescentes de Mata Atlântica. Nesse cenário, o governo do estado lançou o Programa Florestas do Amanhã, uma política pública com meta de restaurar 440 mil hectares de floresta até 2050, o suficiente para absorver cerca de 159 milhões de toneladas de CO₂ da atmosfera.

O programa foi instituído pelo Decreto Estadual nº 49.438/2024 e é coordenado pela Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade, por meio do INEA, o Instituto Estadual do Ambiente. Em 2025, o programa registrou 405 hectares restaurados e cerca de 680 mil mudas plantadas. Para 2026, a meta é plantar 883 mil mudas, com investimentos de R$ 45 milhões previstos no âmbito do primeiro edital do programa.

O que está em jogo além das árvores

A palavra “restauração florestal” pode parecer distante do cotidiano de quem vive numa cidade, mas os números do próprio programa mostram por que o tema afeta diretamente quem liga a torneira. Segundo dados do Programa Florestas do Amanhã, elaborado por Telmo Borges, superintendente de Mudanças do Clima e Florestas da Secretaria do Ambiente, a restauração florestal reduz em 36% os sedimentos nos reservatórios de abastecimento, economizando milhões em tratamento de água.

O estado tem 514 áreas de mananciais que abastecem os 92 municípios fluminenses. Desse total, 450 mil hectares prioritários para restauração estão localizados justamente em áreas de proteção de nascentes e rios. Sem floresta, as encostas cedem, os rios assoreiam e a água que chega nas torneiras exige cada vez mais tratamento e custo.

A linha do tempo dos desastres climáticos no Rio reforça o urgente: crise hídrica na região metropolitana em 2014, deslizamentos na região serrana em 2015, inundações e incêndios significativos em 2022, ondas de calor e seca nos sistemas lagunares em 2024, aumento das ressacas em 2025. Os desastres hidrológicos responderam por 38,82% das mortes em eventos climáticos no estado, segundo o Atlas de Desastres do Brasil, citado na apresentação do programa.

Como funciona o programa na prática

O Florestas do Amanhã opera por editais públicos. Instituições sem fins lucrativos, prefeituras e outras organizações apresentam projetos de restauração, que passam por validação técnica, são implantados e monitorados continuamente. O processo vai da abertura das inscrições à certificação final, com acompanhamento que pode durar anos.

Para decidir onde atuar primeiro, o programa usa uma metodologia de análise multicritério por microbacia. Cada área recebe uma pontuação baseada em cinco critérios: segurança hídrica e qualidade da água, conectividade ecológica entre fragmentos de floresta, engajamento das comunidades locais, uso e ocupação do solo atual, e vulnerabilidade ambiental. O resultado é um mapa de prioridades, com microbacias hierarquizadas de 1 a 4 em urgência de intervenção.

As áreas prioritárias incluem mananciais, Áreas de Preservação Permanente (APPs), Reservas Legais, pequenas propriedades rurais familiares, unidades de conservação e territórios indígenas e quilombolas. A prioridade para pequenas propriedades é importante: 88% das propriedades rurais do estado têm até quatro módulos fiscais, o equivalente a entre 40 e 140 hectares no Rio de Janeiro.

O programa incentiva quatro técnicas de restauração: plantio de mudas nativas em área total, semeadura direta, condução da regeneração natural e os sistemas agroflorestais, que integram produção agrícola e recuperação da floresta ao mesmo tempo. Manguezais e restingas também estão no escopo, além das florestas.

O dinheiro que viabiliza tudo isso

O programa conta com recursos superiores a R$ 530 milhões provenientes do Fundo da Mata Atlântica. Além disso, tem parceria firmada com o BNDES por meio do programa Floresta Viva, que opera por matchfunding: cada real investido pelo fundo estadual é emparelhado por um real do banco de desenvolvimento.

Em outubro de 2025, foi lançado o edital Florestas do Rio 2, que prevê o plantio de 1,5 milhão de mudas até o final de 2027, distribuídas por 36 municípios. O edital opera em parceria com a Secretaria de Estado do Ambiente, o Funbio (Fundo Brasileiro para a Biodiversidade) e o BNDES.

A base legal do programa é sólida: além do decreto estadual que o instituiu, ele se apoia na Lei Estadual nº 8.538/2019, que estabelece a Política Estadual de Restauração, e na Resolução INEA nº 322/2025, que define normas técnicas específicas para sistemas agroflorestais, monitoramento e manejo de áreas restauradas.

O que o estado pretende chegar em 2050

A meta é elevar a cobertura florestal do Rio de Janeiro de 33% para 40% do território, um aumento de 10 pontos percentuais que, segundo as estimativas do governo, representa a absorção de 159 milhões de toneladas de CO₂.

Para chegar lá, o programa tem cinco eixos estratégicos: o Plano Estadual de Restauração Florestal, o fortalecimento do setor florestal com foco em produção sustentável e distritos florestais, o monitoramento florestal por meio do segundo ciclo do inventário estadual, a implementação de um plano de financiamento para biodiversidade alinhado à estratégia nacional, e a gestão eficiente e transparente do programa.

Há também uma agenda paralela em desenvolvimento: o Programa Conexão Mata Atlântica, voltado a reconhecer e remunerar proprietários rurais que produzem e conservam a natureza, fortalecendo cadeias produtivas sustentáveis e implementando o Pagamento por Serviços Ambientais no estado. O PSA é um mecanismo pelo qual o proprietário rural recebe uma retribuição financeira anual por manter práticas de conservação em sua propriedade.

Um programa de longo prazo num estado de memória curta

Programas de restauração florestal têm um problema político intrínseco: árvores crescem devagar, e ciclos eleitorais são de quatro anos. O Florestas do Amanhã tem consciência disso. A âncora do programa é justamente o fato de ter sido institucionalizado por decreto e por lei estadual, o que cria obrigação legal de continuidade independentemente de governos.

O horizonte de 2050 é ambicioso. Mas os dados do próprio programa revelam que o Rio de Janeiro tem dois ativos pouco explorados: é o estado que concentra 24% de toda a flora brasileira e 60% da flora registrada no bioma Mata Atlântica, e já tem 30% do território coberto por unidades de conservação terrestres. A base está posta. O que o Florestas do Amanhã tenta fazer é transformar o passivo ambiental acumulado em ativo ecológico e social. Se vai conseguir, depende de quanto os próximos governos honrarem o compromisso firmado.

Fontes: apresentação “Natureza que Gera Valor: Financiamento Inovador para Escalar a Restauração”, de Telmo Borges, superintendente de Mudanças do Clima e Florestas da Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade do RJ; Decreto Estadual nº 49.438/2024; Lei Estadual nº 8.538/2019; Resolução INEA nº 322/2025; Jornal Atual (outubro de 2025); Tribuna de Petrópolis (fevereiro de 2026); Nova Mata; INEA/SEAS-RJ; Atlas de Desastres do Brasil.

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