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Estudo mostra que a diversidade da agricultura familiar exigem novas políticas

A agricultura familiar é a espinha dorsal da produção de alimentos e da segurança alimentar no Brasil, respondendo por 77% dos estabelecimentos agropecuários e por mais da metade do Valor Bruto da Produção de 142 produtos. No entanto, tratar esse setor como uma categoria homogênea esconde um abismo de desigualdades estruturais que impactam diretamente a vida de quem produz na ponta.

É o que aponta o estudo “Desigualdades estruturais e heterogeneidade da Agricultura Familiar no Brasil a partir do Censo Agropecuário 2017”, desenvolvido pelo WRI Brasil em parceria com a FOLU Brasil. A pesquisa aprofunda o olhar sobre como fatores territoriais, produtivos, de gênero e de raça moldam, e muitas vezes limitam, a capacidade de produção e adaptação dos agricultores familiares.

Uma agricultura familiar, múltiplas realidades

O levantamento demonstra que as condições de produção variam drasticamente conforme a região do país e o tamanho das propriedades. Enquanto no Norte e Nordeste predominam estabelecimentos menores com forte restrição de acesso à assistência técnica, crédito e mecanização, nas regiões Sul e Sudeste há maior inserção produtiva, embora permaneçam barreiras invisíveis ligadas a questões sociais. Já no Centro-Oeste, a agricultura familiar divide espaço com contextos de forte concentração fundiária.

Essa fragmentação se reflete friamente nos números de apoio ao produtor:

  • Apenas 18,2% dos estabelecimentos da agricultura familiar recebem assistência técnica.
  • Somente 15,4% conseguem acessar crédito rural.
  • Apenas 11,5% possuem tratores ou maquinário adequado.
Levantamento demonstra que as condições de produção variam drasticamente conforme a região do país. Foto: Letícia Bucker

O peso do gênero e da raça no campo

As desigualdades também escancaram barreiras demográficas. Mulheres estão à frente de 19,7% dos estabelecimentos familiares, mas enfrentam índices ainda menores de acesso a tratores e assistência técnica em comparação aos homens.

No recorte racial e territorial, o estudo aponta que produtores pretos, pardos e indígenas estão desproporcionalmente concentrados em áreas menores. Enquanto 28,6% dos estabelecimentos dirigidos por produtores brancos têm até cinco hectares, esse índice sobe para 51% entre produtores pretos, 46,1% entre pardos e impressionantes 70,8% entre indígenas. Essa disparidade restringe a capacidade de investimento, a agregação de valor e a resiliência frente a eventos climáticos extremos.

Diversidade produtiva como caminho para a sustentabilidade

Apesar das barreiras estruturais, o estudo ressalta que a diversidade da agricultura familiar é o principal trunfo para a construção de sistemas alimentares sustentáveis e resilientes. O setor responde por fatias expressivas da produção nacional: 76% dos estabelecimentos produtores de bovinos, 80,6% de suínos e 80,1% de aves e ovos, além de sustentar culturas fundamentais para as economias regionais, como a mandioca, o leite, o cacau e o açaí.

Para os especialistas do WRI Brasil, Bárbara Frizo, Virginia Antonioli, Julio Alves, Fernanda Severo e Camila Barbosa, superar os gargalos atuais exige abandonar soluções generalistas. O fortalecimento do setor passa por políticas públicas integradas que considerem as vocações e as dores de cada território, preparando o campo tanto para a geração de renda quanto para os desafios da crise climática.

Com o próximo Censo Agropecuário previsto para 2027, o desafio que fica para gestores e formuladores de políticas públicas é aprimorar a integração de dados para que o apoio estatal chegue exatamente onde a terra precisa de raiz, cuidado e investimento.

Matéria elaborada com base no estudo do WRI Brasil em parceria com a FOLU Brasil, assinado por Bárbara Frizo, Virginia Antonioli, Julio Alves, Fernanda Severo e Camila Barbosa.

Apesar das barreiras estruturais, o estudo ressalta que a diversidade da agricultura familiar é o principal trunfo para a construção de sistemas alimentares sustentáveis e resilientes. Foto: Letícia Bucker

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