A poucas horas do início da 17ª Conferência das Partes (COP 17) da Convenção da ONU sobre Biodiversidade, em Yerevan, na Armênia, um alerta ecoa com força: o mundo sabe o que precisa ser feito, mas continua falhando na hora de executar. É o que aponta o novo Relatório de Progresso sobre as 23 metas globais do Acordo de Kunming-Montreal, firmado em 2022 por 196 países.
Lançado pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, o documento escancara uma realidade incômoda: embora quase 90% dos Estados já tenham estruturado planos nacionais de proteção, menos da metade dessas metas está sendo devidamente executada.
Se o ritmo atual se mantiver, os compromissos vigentes garantirão a proteção de apenas 26% dos ecossistemas terrestres e 12% dos marinhos até 2030, uma margem perigosamente distante do necessário para estabilizar a crise climática e ecológica global.
O peso dos incentivos perversos e o desafio econômico
Para Guterres, o calcanhar de Aquiles da transição ambiental continua nos sistemas econômicos. O relatório aponta lacunas gritantes, sobretudo na incapacidade, ou relutância, dos governos em cortar subsídios e incentivos fiscais a atividades que degradam ativamente a natureza.
A contenção da perda de biodiversidade exige uma engrenagem multissetorial que vai muito além das áreas protegidas. O chefe da ONU destacou que é preciso apertar o cerco contra a mudança no uso da terra, reforçar a ação climática real, barrar espécies invasoras, combater a poluição e regular a exploração direta dos recursos naturais com rigor jurídico e cooperação internacional.
Brasil e Moçambique no mapa dos bons exemplos
Apesar do cenário global de lentidão, o relatório traz respiros importantes e coloca dois países de língua portuguesa no centro das boas práticas de conservação.
O Brasil foi destacado por duas frentes fundamentais:
- O Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa: que estabelece a meta ambiciosa de restaurar 12 milhões de hectares até 2030, abrangendo os seis biomas do país (Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pantanal e Pampas) e integrando o conhecimento tradicional e os direitos territoriais dos povos indígenas e comunidades locais.
- O manejo integrado do fogo: apontado como uma resposta ecossistêmica indispensável para conter a severidade dos incêndios florestais e frear emissões de carbono.
Já Moçambique ganhou reconhecimento internacional por sua vanguarda institucional. O país foi um dos primeiros do mundo a aplicar o Padrão Global para a Identificação de Áreas-Chave para a Biodiversidade, mapeando 29 zonas estratégicas que hoje funcionam como bússola para o planejamento do uso da terra e o desenvolvimento nacional.
Enquanto a COP 17 debate os rumos globais na Armênia até o final de outubro, o desafio que fica na mesa para governos e corporações é transformar o papel dos acordos em políticas públicas reais no território.
Matéria republicada com informações originais da ONU News (por Felipe de Carvalho).











